Dislipidemias: conceitos do oriente ao ocidente

Introdução

Nos últimos anos, tem-se observado um aumento da prevalência de dislipidemias na população geral. Dislipidemias, também chamadas de hiperlipidemias, referem-se ao aumento dos lipídios (gorduras) no sangue, principalmente do colesterol e dos triglicerídios. As alterações pré-estabelecidas nestes metabólicos sangüíneos são indicadores de risco para doenças cardiovasculares. (SANTOS, 2001, LIMA, 2005)
As mudanças no estilo de vida, como o aumento do sedentarismo e hábitos alimentares ricos em carboidratos e gorduras, com conseqüente sobrepeso e obesidade, podem ser fatores contribuintes para o aumento dessa prevalência. (ARCANJO, 2005)
Por meio da acupuntura consegue-se maior equilíbrio físico, metabólico e mental para os pacientes (MACIOCIA, 1996). Ciente disso e sabendo que as dislipidemias vêm se alastrando como um estado que pode levar a conseqüências cardíacas graves, pensou-se em elaborar um trabalho que conseguisse abordar a patologia na medicina tradicional chinesa como uma outra opção de tratamento para estes pacientes.
Diante da magnitude do problema, o objetivo desta revisão é descrever a concepção de dislipidemias na Medicina Ocidental e na Medicina Tradicional Chinesa (MTC), verificando ZangFu envolvidos, pesquisando princípios de tratamento através da Acupuntura e Medicina ocidental.

Método

Desenvolvimento de uma pesquisa bibliográfica, elaborada a partir de material já publicado, constituído de livros, artigos de periódicos e materiais disponibilizados na internet, fornecendo subsídios sobre o tema em questão.
Para este trabalho vamos procurar utilizar material publicado nos últimos dez anos na Medicina Tradicional Chinesa e nos últimos oito anos na Medicina Ocidental.
 
Conceitos

A dislipidemia é o aumento anormal da taxa de lipídios no sangue. Representa um fator de risco significativo para o desenvolvimento de lesões ateroscleróticas que podem causar a obstrução total do fluxo sangüíneo e apresenta altos índices de mortalidade (GUIMARÃES, 2007).
De acordo com a Associação Médica Brasileira, existem dois tipos de dislipidemia: a primária também chamada de genética, que tem origem genética e se apresenta a partir da  hipercolesterolemia familiar, da dislipidemia familiar combinada, da hipercolesterolemia poligênica, da hipertrigliceridemia familiar e da síndrome de quilomicronemia; e a secundária, com origem em medicamentos, como diuréticos, betabloqueadores e corticosteróides como conseqüência de doenças, como o hipertiroidismo e a insuficiência renal crônica ou em situações como o alcoolismo e uso de altas doses de anabolizantes (SANTOS, 2001).
Altos níveis de LDL-colesterol e níveis de HDL-colesterol estão associados a um maior risco cardiovascular, enquanto níveis altos de triglicerídeos teriam papel indireto neste processo por determinar partículas de LDL-colesterol pequenas e densas que seriam mais aterogênicas. (ARCANJO, 2005).
De acordo com a classificação laboratorial podemos ter: hipercolesterolemia isolada (aumento do colesterol total- CT e ou LDL-colesterol LDL-C), hipertrigliceridemia isolada (aumento dos triglicérides-TG), hiperlipidemia mista (aumento do CT e dos TG), diminuição isolada do HDL-colesterol (HDL-C) ou associada a aumento dos TG ou LDL-C (FIGUEIRA et al, 2001, PEDROSO e OLIVEIRA, 2007).
Raramente, as dislipidemias podem causar alterações na pele, como os xantelasmas e os  xantomas. Um fato muito comum é a descoberta de uma dislipidemia  apenas quando  as manifestações clínicas da aterosclerose já se manifestaram (FIGUEIRA et al, 2001, PEDROSO e OLIVEIRA, 2007).
As dislipidemias são um dos principais  fatores de risco cardiovascular.  O risco de aterosclerose e, conseqüentemente, de  doença arterial coronariana, doença arterial periférica ou ainda, de doença das carótidas, aumenta na presença das dislipidemias. Angina do peito, infarto do miocárdio, claudicação nos membros inferiores  e   acidente vascular cerebral (derrame cerebral), é algumas das manifestações clínicas   em portadores de dislipidemias  e aterosclerose (GIROTTO, C. et al, 1996).
O excesso de triglicerídeos é um indicador de risco cardiovascular aumentando, no entanto, sua maior implicação em curto prazo é o risco de pancreatite aguda, principalmente quando os níveis de trilglicerídeos são superiores a 1000mg%. A pancreatite aguda caracteriza-se pelo aparecimento de dor abdominal intensa na região superior do abdômen, sendo que este quadro clínico pode ser recorrente (GIROTTO, C. et al, 1996). 
O diagnostico das dislipidemias baseia-se nos resultados do Lipidograma. É importante observar principalmente os valores de C-HDL, C-LDL e os triglicerídeos. O exame sérico exige uma abstinência do álcool por pelo menos 24 horas e jejum prévio de pelo menos 12 horas (PEDROSO e OLIVEIRA, 2007).
Geralmente se recomenda uma análise completa em todo paciente maior de 20 anos ou em adolescentes e crianças com antecedentes de doença cardiovascular prematura (FIGUEIRA et al, 2001, PEDROSO e OLIVEIRA, 2007). Segundo a MTC as síndromes do baço variam desde aquelas que envolvem digestão até aquelas que afetam o sistema circulatório. As principais funções do baço são transformar alimentos e fluídos, nutrir os músculos e controlar o sangue, mantendo-o dentro dos vasos sangüíneos. Por essa razão, a maioria dos padrões de desarmonia do baço envolvem apetite e digestão insuficientes, fadiga e doenças de sangramento. O baço prefere um ambiente seco, assim, ele é suscetível às condições de umidade oriundas do clima e de fatores alimentares. Ele é especialmente sensível ao clima frio e úmido e alimentos gelados ou crus, e ambos são solo fértil para o fator patogênico da umidade (Maciocia, G., 1996, ROSS, J., 1994).
Quando o baço funciona adequadamente, o corpo está forte e bem nutrido. O sangue, os fluídos e os órgãos também estão bem e, portanto, não há a ocorrência de tipos de deficiência como sangramentos (sangue), edemas (fluidos) ou prolapsos (órgãos) (Maciocia, G., 1996, ROSS, J., 1994).
Segundo Maciocia, quando o baço é deficiente e falha na sua função de transformar e transportar, os fluidos acumulam-se na forma de umidade. A umidade obstrui o fluxo do Qi no aquecedor médio interferindo com a direção adequada do fluxo do Qi (Qi ascendente do baço, Qi descendente do estômago ou fluxo suave do Qi do fígado. Após um longo período de tempo, a obstrução da umidade origina o calor. A umidade começa a interferir no fluxo suave do Qi do fígado e da bile: o Qi do fígado estagna-se no aquecedor médio e a vesícula biliar não pode secretar a bile. Este padrão é causado pelo consumo excessivo de alimentos oleosos que tendem a gerar umidade no baço.

Tratamentos

De acordo com a medicina ocidental, o tratamento das dislipidemias pode ser dividido em não-medicamentoso e medicamentoso.
O tratamento não medicamentoso consiste basicamente em mudança nos hábitos de vida. Neste aspecto, é essencial perder peso, parar de fumar, praticar exercícios físicos regularmente, ingerir bebidas alcoólicas com moderação e melhorar  seus hábitos alimentares. Infelizmente a redução do colesterol com a mudança dos hábitos alimentares, costuma ser discreta (5 a 15%), no entanto, quando acompanhada de expressiva perda de peso e exercícios físicos, essa redução pode ser bem mais significativa (GIROTTO, C. et al, 1996).
 Em linhas gerais, podemos dizer que a dieta do indivíduo com colesterol total ou LDL-C elevados deve ser a seguinte: os carboidratos (simples e complexos) deverão ser responsáveis por  50 a 60% do aporte total de calorias, as proteínas devem participar com cerca de 15, as gorduras  com  25 a 35% (deve haver um predomínio na ingesta de gorduras insaturadas, sendo que as saturadas devem contribuir com menos de 7% do total de calorias), restringir os alimentos ricos em colesterol (menos de 200 mg/dia), restringir as gorduras trans (este tipo de gordura não deve contribuir com mais de 1% do aporte de calorias) e a ingesta de fibras deve ser  pelo menos 20 a 30 gramas ao dia (FIGUEIRA et al, 2001, PEDROSO e OLIVEIRA, 2007).
A quantidade diária de calorias deverá ser aquela que ajude o indivíduo a atingir seu peso ideal (índice de massa corporal inferior a 25 kg/m2) (FIGUEIRA et al, 2001, PEDROSO e OLIVEIRA, 2007).
Nas dislipidemias com elevação dos triglicerídeos, não basta apenas restringir as gorduras. Nestes casos, o paciente deverá evitar ou doces e diminuir a ingesta de massas e pães. Nos pacientes com HDL-C baixo, a medida mais importante é a prática regular de exercícios físicos. Perder peso, parar de fumar e evitar o excesso de bebidas alcoólicas também são recomendados (FIGUEIRA et al, 2001).
Nas dislipidemias associadas ao uso de medicamentos, a suspensão destes, quando possível, pode reverter ou melhorar o quadro. Nas dislipidemias causadas por outras doenças, principalmente diabete melito e hipotireoidismo, o controle destas enfermidades é fundamental para o sucesso do tratamento (GIROTTO, C. et al, 1996).
No tratamento medicamentoso, existe atualmente, diversos medicamentos que podem ser empregados, os quais são usados isolados ou em associação. Geralmente estas medicações deverão ser de uso contínuo e indefinido, pois apenas ajudam a corrigir o distúrbio do metabolismo, não levando a uma verdadeira cura. Uma vez descontinuadas, as alterações das gorduras do sangue deverão retornar ao longo do tempo. As vastatinas são as drogas mais usadas e apresentam um efeito predominante no LDL-C (proporcionam reduções de 18 a 60%), elevando também o HDL-C (5 a 15%) e reduzindo, de forma discreta, os triglicerídeos (7 a 30%) (SCHULZ, 2006). 
Os fibratos  são usados isoladamente naqueles indivíduos com predomínio de triglicerídeos elevados (quando acima de 500mg/dl seu uso deverá ser iniciado imediatamente), com ou sem HDL-C baixo. Os fibratos reduzem os triglicerídeos em 30 até 60% (pacientes com valores mais elevados apresentam reduções mais expressivas) (SCHULZ, 2006).
Outras drogas utilizadas em associação ou isoladas são a ezetimiba, os sequestrantes de sais biliares, o  ácido nicotínico e os ácidos graxos omega 3  (estes últimos reduzem os níveis de triglicerídeos). Algumas destas drogas exigem uma monitorização periódica da função hepática e das enzimas musculares (SCHULZ, 2006).
A medicina ocidental enfoca exclusivamente o local e o mecanismo de uma enfermidade. A medicina chinesa, por outro lado, centraliza no ajuste do organismo inteiro, ela é uma filosofia, assim como uma terapia do corpo e, portanto mais de abordagem orgânica do que mecanicista (PAI, H. J., HSING, W.T. e col, 2009).
A medicina chinesa auxilia na realização de dois objetivos: remover a causa da enfermidade que se liga ao “Qi nocivo”, e revitalizar e reforçar a resistência natural do corpo às doenças que é ligada ao “Qi normal” (PAI, H. J., HSING, W.T. e col, 2009).
A acupuntura é apenas uma das técnicas terapêuticas que compõem um conjunto de saberes e procedimentos culturalmente constituídos, e dos quais não pode ser dissociada. Além das agulhas, a medicina tradicional chinesa utiliza ervas, massagens, exercícios físicos, dietas alimentares, e prescreve normas higiênicas de conduta. Sua lógica é a mesma que orientou toda a vida social da China, no período em que foi desenvolvida: o calendário agrícola, as festas coletivas, os princípios de comportamento social, as regras de etiqueta no trato com as autoridades, a religião, a música, a arquitetura… Os princípios teóricos a partir dos quais as doenças são entendidas, classificadas e tratadas são os mesmos que servem para entender, classificar e lidar com as coisas do mundo, a natureza, o espaço e o tempo (PALMEIRA, 1990).
A avaliação do acupunturista tem por objetivo coletar dados e determinar as patologias e sintomas do paciente para que se possa traçar um tratamento apropriado. É por meio da identificação das alterações do paciente e de bases de conhecimento científico que se pode determinar o diagnóstico e a partir disto os objetivos de tratamento e a seleção de pontos de acupuntura (SCOGNAMILLO, S.M.V.R., BECHARA, G.H., 2001).
Esse método terapêutico chinês, originado há mais de 3.000 anos, baseia-se na inserção de agulhas descartáveis em pontos específicos do corpo, chamados pontos de acupuntura, a fim de estimular o sistema nervoso central e o periférico a liberar neurotransmissores que favoreçam o processo de restauração e manutenção da saúde. A Medicina Tradicional Chinesa abrange vasto campo de conhecimento, envolvendo vários setores ligados à saúde.Suas concepções são voltadas principalmente ao estudo dos fatores causadores da doença, à maneira de tratá-la conforme os estágios da evolução do processo patológico e ao estudo das formas de prevenção, na qual reside toda a filosofia e a essência da medicina chinesa (BRANCO, C.A.e col, 2005).
O tratamento de condições patológicas pela acupuntura, com modulações orgânicas e alívio da dor, está vinculado ao estímulo de pontos específicos do corpo com agulhas especiais muito finas. Os pontos de acupuntura são considerados na MTC a área mais externa do corpo energético do indivíduo, funcionando como meio de comunicação entre o meio interno e externo. Por meio dessa punção, as fibras nervosas responsáveis pelos resultados da acupuntura serão estimuladas, induzindo o SNC a produzir neurotransmissores e substâncias neuro-humorais que viabilizarão o controle da dor, do estresse, da ansiedade e de todos os outros processos possíveis com a utilização da acupuntura. Dessa maneira, um ponto situado em determinada parte do corpo pode agir sobre diversos outros órgãos e estruturas. A seleção dos pontos varia de indivíduo para indivíduo, dependendo da localização da dor e da sensação à palpação, podendo ser pontos locais ou à distância. Pacientes com patologias similares podem receber tratamentos diferentes quando avaliados a partir dos princípios da MTC, e a seleção dos pontos utilizados dependerá dessa avaliação (BRANCO, C.A.e col, 2005).

Discussões e Conclusões

A chave da medicina chinesa é a observação da função e o uso específico da combinação dos pontos de acupuntura prescritas de acordo com a teoria Yin-yang e a teoria dos cinco elementos e das combinações herbáceas para os sintomas altamente diferenciados enquanto que a medicina alopática ocidental se baseia nas drogas, cirurgias e quimioterapias para o tratamento (PAI, H. J., HSING, W.T. e col, 2009). Apesar de tradicional, a acupuntura não é uma ciência estática. Os estudos não se concentram somente na descoberta de novos pontos, mas principalmente em novas técnicas de estimulação dos mesmos (BRANCO, C.A.e col, 2005).
De acordo com a medicina ocidental as dislipidemias são alterações metabólicas lipídicas decorrentes de distúrbios em qualquer fase do metabolismo lipídico, que ocasionem repercussão nos níveis séricos das lipoproteínas enquanto na medicina tradicional chinesa a patologia está relacionada com uma umidade no baço, levada a uma dieta rica em alimentos oleosos.
As duas medicinas têm pontos em comum, como a melhora na qualidade de vida com dieta rica em alimentos saudáveis, práticas de atividades físicas e diminuição de estresse.
De acordo com o que existe nas duas medicinas, poderíamos juntar o melhor da medicina chinesa com o melhor da medicina ocidental. Tal síntese, nós acreditamos, irá prover o mundo com um sistema de saúde mais completo e mais satisfatório.

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